Evento, realizado pelo DLLArtes, acontece entre 29 de setembro e 1º de outubro e reúne discussões sobre pesquisa, extensão, representatividade, cultura e escrevivências.
Teve início nesta segunda-feira (29), na Universidade do Estado da Bahia (UNEB), Campus II, em Alagoinhas, o X Seminário de Línguas e Literaturas Estrangeiras (SELLES). O evento, realizado pelo Departamento de Linguística, Literatura e Artes (DLLArtes), segue até 1º de outubro e reúne uma programação voltada à produção acadêmica, pesquisa, extensão, representatividade, cultura e escrevivências.
Realizado há cerca de uma década, o SELLES tem entre seus objetivos expandir e fortalecer as atividades de pesquisa e extensão na área de Letras, promovendo espaços de diálogo entre estudantes, professores e pesquisadores.
A coordenadora do curso de Letras – Língua Inglesa, Bárbara Carneiro, destacou a importância do encontro como espaço de construção coletiva: “Eu acho que é um espaço muito importante para todos nós, creio que estamos o tempo todo em construção e daí surge a importância de abrir esse espaço…”
Decolonizando saberes e práticas em línguas, literaturas e culturas

Entre os convidados da programação está o professor Kanavillil Rajagopalan, linguista indiano naturalizado brasileiro e professor titular aposentado da UNICAMP. Na atividade, ele apresentou a temática “Decolonizando saberes e práticas em línguas, literaturas e culturas estrangeiras”.
A discussão parte da relação entre língua, identidade, história e poder. Em sua abordagem, a aprendizagem de uma língua estrangeira não é apresentada apenas como aquisição de vocabulário ou estruturas gramaticais, mas também como uma experiência atravessada por questões históricas, culturais e políticas.
Um dos pontos apresentados durante a discussão foi a própria trajetória de Rajagopalan e sua relação com a língua inglesa em um contexto marcado pela colonização britânica da Índia. A reflexão evidencia como uma língua estrangeira pode carregar relações históricas de poder e, ao mesmo tempo, ser ressignificada por aqueles que a utilizam.
A proposta de descolonizar saberes coloca em debate justamente a necessidade de questionar perspectivas que tratam determinados conhecimentos, culturas ou formas de falar como referências universais.
“O Sul é o meu Norte”

Outro destaque da programação foi a participação do professor Sávio Siqueira, professor titular do Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e pesquisador vinculado ao CNPq. Sua apresentação teve como tema “Suleando e de(s)colonizando o ensino de línguas: da recusa da familiaridade à promoção do estranhamento”.
A expressão que sintetiza a discussão é direta: “O Sul é o meu Norte.”
A partir do conceito de “sulear”, a apresentação problematiza o uso da ideia de “nortear” como referência e questiona uma lógica em que o Norte aparece historicamente associado ao que está acima, ao centro e às zonas de poder, enquanto o Sul é relacionado ao que está abaixo, ao colonial e às chamadas zonas de silêncio.
A apresentação também recuperou a contribuição do físico brasileiro Marcio D’Olne Campos, que publicou, em 1991, o texto A Arte de Sulear-se, no qual aparecem as expressões “sulear-se” e “suleamento”. Também foi destacada a utilização do termo por Paulo Freire, em Pedagogia da Esperança, publicado em 1992.
Nesse sentido, sulear aparece como uma possibilidade de deslocar o ponto de referência e valorizar perspectivas produzidas a partir do Sul, especialmente aquelas historicamente colocadas à margem.
Um mundo marcado pela diversidade linguística
A apresentação de Sávio Siqueira também abordou as transformações do mundo contemporâneo e suas relações com a colonialidade.
Entre os elementos discutidos estão os fluxos migratórios e a mobilidade, o surgimento de novas diásporas e de ambientes sociolinguísticos considerados mais fluidos. Esse cenário contribui para o crescimento da diversidade linguística e cultural dentro e fora das salas de aula.
O debate passou ainda por conceitos como superdiversidade, translinguagem, interculturalidade, decolonialidade, plurilinguismo, multilinguismo e línguas francas globais, além da multimodalidade e das transformações provocadas pelas tecnologias digitais.
A discussão aponta para a necessidade de pensar salas de aula cada vez mais plurilíngues e multiculturais, considerando identidade, etnicidade e educação antirracista como elementos importantes no processo de ensino.
Valorização de pesquisadores da região
A programação do SELLES também busca aproximar a produção acadêmica da comunidade universitária e valorizar pesquisadores que possuem relação com a própria instituição.
A coordenadora do curso de Letras – Língua Francesa, Margareth Nascimento dos Santos, ressaltou essa característica: “Nós já tivemos professores convidados de todas as regiões do país, mas como característica nossa, valorizar nossos pesquisadores da região, inclusive, estudantes que saíram daqui (UNEB) e retornaram anos depois como profissionais…”
Dessa forma, o SELLES se apresenta não apenas como um espaço para exposição de pesquisas, mas também como um ambiente de troca de experiências, formação e reflexão sobre os caminhos do ensino de línguas, literaturas e culturas, colocando em discussão perspectivas que historicamente ficaram fora dos centros tradicionais de produção do conhecimento.
O evento segue até 1º de outubro, com programação voltada à comunidade acadêmica e ao fortalecimento do diálogo entre pesquisa, extensão, cultura e formação em Letras.
Por Yuri Henrique.






